sexta-feira, 5 de junho de 2015

Viagem

[...] Naquele dia quando peguei o ônibus, senti prazer indescritível, jamais sentido antes.
Preferia aquela sensação de estar sempre a caminho e não estar em lugar algum. Eu não precisava decidir nada, estava em um meio caminho, meio termo, em lugar nenhum.
A travessia me interessava mais que o destino.  Me dava uma sensação de reconforto como na infância quando recebia colo da minha mãe.  Não sentia isso há muito tempo.
Eu não queria decidir nada naquele dia, queria que a travessia me conduzisse, que o vento que entrava pelas janelas me embalasse, que o sol queimasse minha pele sem culpa.  Eu ficaria ali.
Queria ouvir minha respiração. Nunca gostei tanto de ouvir o barulho do ronronar do ônibus e as sacudidas do caminho. Eu não estava em lugar algum.
Eu me sentia feliz. Bastava eu ficar ali um bom tempo, sem destino, sem saber para onde ir.
Eu queria merecer esse tempo de deglutir o fato de não saber para onde ir.
Queria me respeitar, respeitar minha indecisão.
É difícil entender às vezes que não somos robôs, que somos gente. Que temos que sentir com totalidade, viver com intensidade, respeitar quem somos e os nosso tempos.



Pérola Priz