quarta-feira, 12 de julho de 2017

Limbo


Trancafiada naquele quarto, de repente, acordou.
Não fazia ideia de há quanto tempo estava ali. 
As cortinas encontravam-se fechadas e a poeira sobre os móveis era espessa.Ao olhar para os lados via pequenos pontos de poeira caindo do teto. Seus cabelos estavam compridos, suas vestes, esquecidas.

Ao dar-se conta de porque ainda estava ali, queria gritar, mas ninguém a ouviria. Não havia ninguém que pudesse tirá-la dali que não ela mesma. Somente ela era capaz de retirar-se do limbo.

Pérola Priz 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Personagem


Pelos teus olhos  me faço e construo
Pelos mesmos olhos me rasgo inteira
Descosturo a roupa e desabotoo terno

E se num dia
Pelos teus olhos acordo bela
No mesmo dia
Desfaço sol, desfaçato tela

Se num instante
Me constróis plena
No outro
mero barco a vela
feito de qualquer papel

E se num momento sou mártir
Morro de amor e de vontade
No outro sou vilã de mim

Se por uma hora sou dócil
No outro sou de pano
E não falo por mim
Me fazes como queres
Me deixas como pensas
Me conduz no imaginável


Pérola Priz

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Nela

Perdi a hora, lances e recados
Tendo a lida e os ossos fracos
Pela fraqueza e o cansaço

Já dormimos arrependidos
Das palavras escondidas
Dessa falta de maior amor
Por nós mesmos

E a dignidade tão falada
E pouco mesmo persistida
Soa falsa na investida de si

E vestiria pouco a pouco
A inocência já perdida
Pela cidade de Brasília
Que ensinou o que há

Dores e dissabores
Os amores e as rotas
As superquadras
E saídas w3

E ainda escuto a respiração
Com o trânsito das seis
O estresse de uma hora
De Asa Norte a Taguatinga

E nesse vai e vem
Dessa gente trabalhadora
O suor e o cansaço
O desejo do respeito
Que a mesma Brasília
Não tem

Mas a seca chega logo
Deixa ipês todo canto
Tirando a atenção de onde importa
Deixando o céu cor de anil


Pérola Priz

sábado, 8 de abril de 2017

Nosso

E no meio de tudo
A esperança
Pois o fracasso
Não era maior que ela

Ao acordar havia mais uma chance
Naquele dia mais que comprido
No qual os segundos mais que bem-vindos
Me ensinavam a levantar

E o rosto mais bobo do mundo
Tinha acesso ao sorriso fácil
Era dia, era novo, era caso
Eu fazia pose de certezas
Mas só tinha de fato essas :
Era dia, era novo, era nosso


Pérola Priz

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Quem vai me salvar de mim, senão eu?

No despertar da horas
As palavras não pretendidas
Nas frases caóticas ditas
Da infantilidade que me sobrepuja
Quem vai me salvar de mim
Senão eu?

Dessa infantilidade estendida
Dessa preguiça de crescer
Dessa raiva que sobrepõe tudo
Da justiça que se confunde
com vingança
Do rancor que não se resolve
Da postergação condescendente
Da sensação de sujeira sobressalente
Dessa falta do melhor eu

Quem vai me salvar de mim
Senão eu?

Dessa sensação de tempo escasso
Que ecoa em peito aberto desferido
desse hábito recorrente de desilusão
das duras vezes que fechei em mão
sentimentos bons que me mudariam
Quem vai me salvar de mim
Senão eu?

Pérola Priz

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Deus

 Eu nem me vi e nem me veria
Desde que me assaltasse alma
Esse meu lado que me transtorna

E se todos tiverem um lado indevido
Um desvio de obra de construção
Esse erro que entorta um prédio
Que nos tira dos eixos da via de mão
Me tranquilizo no dessabor da dúvida
Por medo de ser única em contramão

E só esperamos que tudo passe depressa
Pois nos desgostamos pelo que sentimos
Nos dias que sem sobreaviso entortamos
As dores e os medos do coração perene

Não há cálculos  que nos posicionem
Tampouco a química dos laboratórios
É no invisível que deixamos de confiar
É n’ele o céu da vida e a busca dos desgastados
De uma longa busca que parece sem fim

Pérola Priz