segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Tortuoso

Os sorrisos eram meio sorrisos
As bocas eram meio caretas
Os dentes todos cerrados
Na falta de contentamento

Não havia palavra correta e atitude certeira
Que lavasse a alma daquela sujeira
Corrente, contínua e incrustada
Das palavras sórdidas e incessantes
De bocas que pronunciavam injustiças
E simbolizavam perseguição e ordinariedade

E não havia meio de sair sorrateiramente
Que o trabalho exigia presença e mente
Fazíamo-nos de pobres insolentes
Pois não era possível digladiar com a torrente
Manancial imundo que não secava

Os sorrisos eram meio caretas
os dentes eram cerrados
As bocas todas quietas
As mentes em polvorosa

Não havia alma limpa que subjugada
não se corrompesse ao desafeto
E não havia trabalhador guerreiro
Que não esperasse ansiosamente
O momento do ajuste de contas


Pérola Priz






Na calada

E se estivesse perdido?
E se não visse nada através?
E se tivesse virado a noite
desnorteado e com fome?

E se ao invés de homem
fosse criança?
E se pela estrada adentro
nunca mais se encontrasse?

E se amanhã fosse como ontem?
O mesmo de hoje
O mesmo de sempre
O que eu faria por ele?
O que fariam por nós?
O que seria da sombra
na rua do beco escuro,
caso não houvesse amor
e boa vontade desperta
no peito de quem acolheu?


Pérola Priz